quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010


Os ignorantes são impossíveis de satisfazer




sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010


Não me esquecerei da tua palavra.




terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

it's alright to want more than this

estar só tem que ver com: ter quase sempre alguém por perto quando é preciso, quase nunca ter alguém por perto quando é desejado. o processo decorre: tomada de consciência do eu, do único. não sobram registos, o que me entristece. é um processo de leitura, não de escrita. a leitura abre o que a escrita encerra. a caminho de qualquer parte surge a sensação de isolamento, do sempre estar a sós com as coisas mais importantes - eu e a minha crescente felicidade, eu e a minha desolação por isto e por aquilo. a necessidade de consolo é impossível de satisfazer mas não é impossível de desaparecer, enquanto necessidade. todo o consolo vem armadilhado. a escrita de franny tem que ser do género diarístico - pessoal, na busca, na espera, no exercício. ainda não é isto.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

É então que um grande silêncio cai sobre os trinta quilómetros da ilha. Ou vem das coisas, do interior das coisas. É um silêncio extremamente doce, um equilíbrio supremo. A ilha adquire uma grave e grandiosa imobilidade. E a luz entra e sai pelas coisas, como se elas fossem esponjas. As mãos ficam muito nuas. É dos olhos que primeiro desaparece o sono. E da boca. De cada parte do corpo, lentamente, de todas as partes, até que as pessoas se abram totalmente. Como numa ressurreição.


- Herberto Herberto -

sábado, 2 de janeiro de 2010

o que pretendo dizer com silêncio

a criação como movimento interior que transborda


sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

é preciso

olhar o mundo a partir da raiz do quotidiano.

a erosão não é um eros muito grande

(dizer que te amo é dizer que estou disponível para te amar esperando que os dias e os meses mudem o sentido definitivo da palavra)

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

vim sentar-me para escrever

a mãe equilibrava o amor
avaliando o risco
de afogamento
quando mudamos de casa dizem-me
são seiscentos quilómetros
dez horas de viagem
*
na cidade vai nevando
sou feliz não há mar estou sentada
a minha mãe
*
sei que
ninguém morre para que ninguém tenha de escolher

não sei se te lembras disto

Há uma história de um gato e um rato que tiveram um filho. Do desastre que se lhe seguiu nasceu uma criança. O rato, fugiu. O gato saiu à caça. A criança foi a única que não pôde fazer nada.
Há um animal que se chama ónagro. Também pode ter filhos.
O meu avô era marinheiro. Morreu debaixo de um comboio.
A minha avó criou a minha mãe debaixo dos carris que lhe arruinaram a graça, que é como quem diz, pancadaria subterrânea.
Não sei como é que a história avançou até ao voo do meu perfume que
de rajada
se estilhaçou na parede.
[é o ponto de partida]

vim sentar-me para escrever

ouve, posso comprar qualquer outra coisa que te faça falta
maçãs e regressar
desejando claro que o dia te seja limpo e tempo de preparação: 5 minutos
grau de dificuldade: muito baixo pequeno-almoço na sala
título no canto, ao guardanapo:

uma boa escritora querendo ser uma bela escritora

que não se atira
que não se suja
que não se coloca no meio do texto
[é preciso, antes de mais, encontrar como primeiro destinatário o próprio poeta, que este seja belo ou não, que não faça diferença, que se dane a sintaxe, o leitor, o crítico, o avaliador; se eu sou o poeta, que não sou belo, que não sou bom, que se dane eu. é preciso, logo de seguida, nem sequer duvidar.]

vim sentar-me para escrever

exercício número um: trabalhar o que já existe.

o primeiro verso era título de um livro
o poema começava pelo que faltava
no texto ou no poeta
pão
ou
uma boa escritora querendo ser uma bela escritora

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

quando é que o escritor ouve o tiro da partida?
quando é que sabe, durante a corrida, se está a caminho da meta?

sábado, 5 de dezembro de 2009

A única "responsabilidade", ir mais além



quando o texto te escreve. se inscreve. se instala. impele. assombra. quando te agarra e te atira contra o seu próprio corpo sólido. quando a caligrafia é o decalque do teu roteiro interior.
chegar a ti sem deixar pegadas.
não (te) voltes para trás.
trabalha o esquecimento.
sonha a árvore e devora avidamente o seu fruto.
deixa a última semente de realidade por comer.



quero construir uma casa comunitária.
mas como? quando dizes casa outro diz casa diferente.
é preciso ceder para o bem comum, dizes tu.
quero construir uma casa. cedo a cor (rosa, branca, azul), mas façamos uma casa confortável para todos que a nomeiam.
quando digo "confortável" não digo tapetezinho fofinho com dez centímetros de altura.
digo : toda a casa deve ter alicerces para não cair, telhado para abrigar.
construamos a partir daqui.



que assim comece

Senhor, dá a cada um a sua própria morte.
Uma morte saída dessa mesma vida
em que ele teve amor, miséria e sentido.
[Rilke]


acredito no movimento natural para além do pó.
o dar e receber não existe, abolida a posse.
o gesto nasce e transborda.
em sintonia usufruímos. e é tudo.




"As colheitas mais puras são semeadas num solo que não existe. Eliminam a gratidão e apenas são devedoras da Primavera."

-René Char-