Faz-se luz pelo processo
de eliminação de sombras
Ora as sombras existem
as sombras têm exaustiva vida própria
não dum e doutro lado da luz mas no próprio seio dela
intensamente amantes loucamente amadas
e espalham pelo chão braços de luz cinzenta
que se introduzem pelo bico nos olhos do homem
Por outro lado a sombra dita a luz
não ilumina realmente os objectos
os objectos vivem às escuras
numa perpétua aurora surrealista
com a qual não podemos contactar
senão como os amantes
de olhos fechados
e lâmpadas nos dedos e na boca
- Mário Cesariny -
sexta-feira, 5 de março de 2010
quarta-feira, 3 de março de 2010
dependente da imagem. não conseguir escapar dela. do dia activo à noite onírica, tudo é escape ao silêncio da treva, da não-imagem.
dissipadas as imagens exteriores restam as interiores, o indivíduo que as possui.
quando eliminadas as interiores, surge nada.
não ter, não desejar.
temer o nada, esta é a raiz da ilusão.
o gesto aniquila o gesticular.
movimento anula o gesto.
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
it's alright to want more than this
estar só tem que ver com: ter quase sempre alguém por perto quando é preciso, quase nunca ter alguém por perto quando é desejado. o processo decorre: tomada de consciência do eu, do único. não sobram registos, o que me entristece. é um processo de leitura, não de escrita. a leitura abre o que a escrita encerra. a caminho de qualquer parte surge a sensação de isolamento, do sempre estar a sós com as coisas mais importantes - eu e a minha crescente felicidade, eu e a minha desolação por isto e por aquilo. a necessidade de consolo é impossível de satisfazer mas não é impossível de desaparecer, enquanto necessidade. todo o consolo vem armadilhado. a escrita de franny tem que ser do género diarístico - pessoal, na busca, na espera, no exercício. ainda não é isto.
terça-feira, 5 de janeiro de 2010
É então que um grande silêncio cai sobre os trinta quilómetros da ilha. Ou vem das coisas, do interior das coisas. É um silêncio extremamente doce, um equilíbrio supremo. A ilha adquire uma grave e grandiosa imobilidade. E a luz entra e sai pelas coisas, como se elas fossem esponjas. As mãos ficam muito nuas. É dos olhos que primeiro desaparece o sono. E da boca. De cada parte do corpo, lentamente, de todas as partes, até que as pessoas se abram totalmente. Como numa ressurreição.
- Herberto Herberto -
- Herberto Herberto -
sábado, 2 de janeiro de 2010
sexta-feira, 18 de dezembro de 2009
a erosão não é um eros muito grande
(dizer que te amo é dizer que estou disponível para te amar esperando que os dias e os meses mudem o sentido definitivo da palavra)
segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
vim sentar-me para escrever
a mãe equilibrava o amor
avaliando o risco
de afogamento
quando mudamos de casa dizem-me
são seiscentos quilómetros
dez horas de viagem
*
na cidade vai nevando
sou feliz não há mar estou sentada
a minha mãe
*
sei que
ninguém morre para que ninguém tenha de escolher
avaliando o risco
de afogamento
quando mudamos de casa dizem-me
são seiscentos quilómetros
dez horas de viagem
*
na cidade vai nevando
sou feliz não há mar estou sentada
a minha mãe
*
sei que
ninguém morre para que ninguém tenha de escolher
não sei se te lembras disto
Há uma história de um gato e um rato que tiveram um filho. Do desastre que se lhe seguiu nasceu uma criança. O rato, fugiu. O gato saiu à caça. A criança foi a única que não pôde fazer nada.
Há um animal que se chama ónagro. Também pode ter filhos.
O meu avô era marinheiro. Morreu debaixo de um comboio.
A minha avó criou a minha mãe debaixo dos carris que lhe arruinaram a graça, que é como quem diz, pancadaria subterrânea.
Não sei como é que a história avançou até ao voo do meu perfume que
de rajada
se estilhaçou na parede.
Há um animal que se chama ónagro. Também pode ter filhos.
O meu avô era marinheiro. Morreu debaixo de um comboio.
A minha avó criou a minha mãe debaixo dos carris que lhe arruinaram a graça, que é como quem diz, pancadaria subterrânea.
Não sei como é que a história avançou até ao voo do meu perfume que
de rajada
se estilhaçou na parede.
[é o ponto de partida]
vim sentar-me para escrever
ouve, posso comprar qualquer outra coisa que te faça falta
maçãs e regressar
desejando claro que o dia te seja limpo e tempo de preparação: 5 minutos
grau de dificuldade: muito baixo pequeno-almoço na sala
título no canto, ao guardanapo:
maçãs e regressar
desejando claro que o dia te seja limpo e tempo de preparação: 5 minutos
grau de dificuldade: muito baixo pequeno-almoço na sala
título no canto, ao guardanapo:
uma boa escritora querendo ser uma bela escritora
que não se atira
que não se suja
que não se coloca no meio do texto
que não se suja
que não se coloca no meio do texto
[é preciso, antes de mais, encontrar como primeiro destinatário o próprio poeta, que este seja belo ou não, que não faça diferença, que se dane a sintaxe, o leitor, o crítico, o avaliador; se eu sou o poeta, que não sou belo, que não sou bom, que se dane eu. é preciso, logo de seguida, nem sequer duvidar.]
vim sentar-me para escrever
exercício número um: trabalhar o que já existe.
o primeiro verso era título de um livro
o poema começava pelo que faltava
no texto ou no poeta
pão
ou
uma boa escritora querendo ser uma bela escritora
o primeiro verso era título de um livro
o poema começava pelo que faltava
no texto ou no poeta
pão
ou
uma boa escritora querendo ser uma bela escritora
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